Wilhelm Reich chegou aos Estados Unidos em agosto de 1939, quase literalmente no último navio antes da guerra. Trazia consigo dois microscópios, caixas de anotações, uma reputação científica em frangalhos na Europa — e uma convicção inabalável de que havia descoberto a energia fundamental da vida. Os vinte anos que se seguiriam, os últimos de sua vida, constituem o capítulo mais ambicioso, mais controverso e mais trágico de toda a sua trajetória.
Os primeiros anos americanos
Reich foi contratado como professor associado na New School for Social Research, em Nova York, onde lecionou entre 1939 e 1941. A New School era um refúgio intelectual para acadêmicos europeus exilados, e Reich encontrou ali um ambiente inicialmente receptivo. Mas ele não era alguém que se contentava com a vida acadêmica convencional. Já em Nova York, começou a desenvolver a teoria que dominaria toda a sua fase americana: a energia orgone.
A ideia central era esta: a energia que Reich observava nos processos emocionais de seus pacientes — as correntes, as sensações de calor, os tremores involuntários — não era apenas um fenômeno psicológico ou neurológico. Era a manifestação de uma energia cósmica primordial, presente em toda a natureza, que ele batizou de orgone (do radical "orgasmo" e "organismo"). O orgone, segundo Reich, estava na atmosfera, nos organismos vivos, no solo, na água. Era a energia da vida em si.
O acumulador de orgone
Em 1940, Reich construiu o primeiro acumulador de orgone — uma cabine do tamanho de uma cabine telefônica, feita de camadas alternadas de material orgânico (madeira, algodão) e metal (aço). A teoria era que o material orgânico absorvia o orgone atmosférico e o metal o refletia para dentro, criando uma concentração de energia no interior. Pacientes sentavam-se dentro do acumulador por períodos regulares. Reich relatava melhoras em doenças variadas, incluindo câncer. Nenhum desses resultados foi confirmado por estudos independentes.
Orgonon: o reino no Maine
Em 1942, Reich comprou uma propriedade de 160 acres em Rangeley, no estado do Maine — uma região de florestas, lagos e inverno rigoroso. Batizou-a de Orgonon e transformou-a no centro de sua operação científica. Ali construiu um laboratório, um observatório, um centro de conferências. Orgonon se tornou ao mesmo tempo um instituto de pesquisa, uma clínica, uma comunidade e o cenário de um projeto cada vez mais grandioso e cada vez mais isolado do resto da comunidade científica.
Em 1944, Reich casou-se com Ilse Ollendorff, uma imigrante alemã que se tornou sua secretária, administradora e companheira. Em 1944, nasceu o filho, Peter Reich, cuja memória da infância em Orgonon seria registrada décadas depois no livro A Book of Dreams (1973) — um relato pungente de um menino que adorava o pai sem entender o que acontecia ao redor.
Os anos de Orgonon foram de produção frenética. Reich publicou o jornal Orgone Energy Bulletin, escreveu livros, formou terapeutas, desenvolveu novos aparelhos. Experimentou o uso do acumulador de orgone em pacientes com câncer. Construiu o cloudbuster — uma máquina que, segundo ele, podia influenciar o clima ao manipular o orgone atmosférico. Cada nova ideia era mais ambiciosa que a anterior, e cada uma o afastava mais do mainstream científico.
O desastre Oranur e a espiral final
Em 1951, Reich realizou o Experimento Oranur (Orgonomic Anti-Nuclear Radiation) — uma tentativa de usar o orgone para neutralizar os efeitos da radiação nuclear. O contexto era a Guerra Fria: o medo atômico era real, e Reich acreditava que o orgone poderia oferecer uma proteção biológica contra a radioatividade. Ele colocou uma pequena quantidade de material radioativo (rádio) dentro de um acumulador de orgone superdimensionado.
O resultado foi catastrófico. Várias pessoas no laboratório adoeceram — náuseas, dores de cabeça, mal-estar generalizado. Camundongos morreram. O próprio Reich ficou doente. Ele interpretou os resultados como prova de que o orgone e a radiação nuclear interagiam de forma violenta, criando uma energia tóxica que batizou de DOR (Deadly Orgone Radiation). A interpretação científica mais prosaica é que houve simplesmente contaminação radioativa no laboratório.
Após o Oranur, a personalidade de Reich pareceu mudar. Colaboradores de longa data o descreviam como mais paranóico, mais autoritário, mais isolado. Ilse Ollendorff separou-se dele em 1954. O círculo de colaboradores se reduziu. Reich começou a ver conspirações em toda parte — contra ele, contra o orgone, contra a liberdade sexual.
A FDA, a injunção e a queima dos livros
A Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos havia começado a investigar Reich já nos anos 1940, suspeitando que o acumulador de orgone era um dispositivo médico fraudulento. Em 1954, a FDA obteve uma injunção judicial proibindo a venda e o transporte interestadual de acumuladores de orgone e de todas as publicações que mencionassem a energia orgone.
Reich recusou-se a comparecer ao tribunal. Sua posição era que um tribunal não tinha competência para julgar questões científicas. Enviou ao juiz uma carta longa e apaixonada, explicando sua pesquisa e recusando a jurisdição da corte. O juiz, previsivelmente, não ficou impressionado. A injunção foi mantida por contumácia.
“Nunca se impediu uma descoberta científica com uma injunção judicial. Se minha descoberta é verdadeira, nenhum tribunal pode destruí-la. Se é falsa, ela se destruirá sozinha.” — Wilhelm Reich, carta ao juiz federal John Clifford, 1954
Em 1956, um colaborador de Reich, o Dr. Michael Silvert, transportou acumuladores de orgone do Maine para Nova York, violando a injunção. Reich foi considerado responsável. Preso por desacato, foi condenado a dois anos de prisão federal. Antes da prisão, por ordem judicial, agentes da FDA supervisionaram a destruição de acumuladores de orgone e a queima de livros e publicações de Reich — seis toneladas de material foram incineradas num forno de lixo em Nova York, em agosto de 1956.
A queima dos livros
A destruição dos livros de Reich é um dos episódios mais perturbadores da história intelectual americana. Não foram queimados apenas materiais promocionais do acumulador — foram destruídas obras teóricas, incluindo cópias de Análise do Caráter e A Função do Orgasmo. O fato de que o governo dos Estados Unidos queimou livros de um refugiado do nazismo — cujos livros já haviam sido queimados na Alemanha em 1933 — é uma ironia histórica que não passou despercebida.
Lewisburg e a morte
Wilhelm Reich entrou na Penitenciária Federal de Lewisburg, na Pensilvânia, em março de 1957. Tinha sessenta anos. Estava doente, exausto e isolado, mas, segundo relatos de outros prisioneiros e dos registros da prisão, mantinha uma dignidade surpreendente. Continuava a escrever. Planejava sua defesa. Acreditava que seria libertado e que a história o absolveria.
Não foi libertado. Em 3 de novembro de 1957, Reich foi encontrado morto em sua cela. A causa oficial foi insuficiência cardíaca. Tinha sessenta anos. Poucos dias antes, seu pedido de liberdade condicional havia sido negado. Foi enterrado em Orgonon, na propriedade que ele amara, sob uma lápide simples.
Antes de morrer, Reich havia deixado instruções para que seus arquivos pessoais — cadernos, cartas, manuscritos inéditos — fossem lacrados por cinquenta anos. Os arquivos Reich foram depositados na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e abertos ao público em 2007. Sua análise continua em andamento e tem revelado um Reich mais complexo, mais vulnerável e mais humano do que tanto os hagiógrafos quanto os detratores haviam sugerido.
Para aprofundar
Sobre os anos americanos, a fonte primária mais importante é Wilhelm Reich: A Personal Biography, de Ilse Ollendorff Reich (1969). Para o contexto legal, The FDA Campaign Against Wilhelm Reich, de Jim Martin (pesquisador independente). Os arquivos abertos em 2007 na Biblioteca do Congresso podem ser acessados online em loc.gov.