O que é o caráter (vs sintoma)

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Antes de Reich, a psicanálise tratava sintomas. O paciente chegava ao consultório com uma queixa específica — uma fobia, uma compulsão, uma paralisia histérica — e o analista trabalhava para desenterrar a memória reprimida que alimentava aquele sintoma. Cure a memória, cure o sintoma. Esse era o modelo freudiano clássico, elegante e direto. Reich fez uma pergunta diferente, mais perturbadora e mais difícil: por que essa pessoa específica desenvolveu esse sintoma específico? Por que um homem sob estresse desenvolve uma úlcera e outro desenvolve uma fobia? Por que uma mulher diante da mesma situação se deprime enquanto outra se enfurece?

A resposta de Reich foi: porque eles têm caracteres diferentes. E o caráter, argumentou ele, não é um detalhe secundário — é a estrutura fundamental da personalidade. O caráter é a neurose. Não é algo que a pessoa "tem", como quem tem uma gripe. É algo que a pessoa é. É a totalidade dos padrões crônicos de defesa que o indivíduo desenvolveu ao longo da vida para lidar com um mundo percebido como ameaçador.

Neurose de sintoma vs. neurose de caráter

Reich distinguia dois tipos de apresentação clínica. Na neurose de sintoma, o paciente tem um problema localizado — uma fobia, um tique, uma compulsão — que ele próprio reconhece como estranho e indesejável. O sintoma é egodistônico: a pessoa sabe que algo está errado. Na neurose de caráter, o problema é a personalidade inteira. O paciente não tem um sintoma que o incomoda — ele é o sintoma. Suas defesas são egossintônicas: parecem naturais, inevitáveis, "é assim que eu sou". Tratar a neurose de caráter exige uma abordagem completamente diferente.

O caráter como história congelada

Pense no caráter como a história de uma pessoa cristalizada em padrões automáticos. Uma criança cresce num ambiente onde expressar raiva é perigoso — talvez o pai reaja com violência, talvez a mãe se desintegre emocionalmente. A criança aprende, não intelectualmente mas com o corpo inteiro, que a raiva deve ser suprimida. Essa supressão, repetida milhares de vezes ao longo de anos, torna-se automática. O músculo que cerraria os punhos se congela. A mandíbula que gritaria se trava. A respiração que se aprofundaria para dar potência à voz se torna superficial.

Décadas depois, essa criança é um adulto que "nunca se zanga". Não é que ela escolha não se zangar — ela genuinamente não sente raiva. A emoção foi suprimida tão cedo e tão completamente que desapareceu da consciência. Mas não desapareceu do corpo. A mandíbula continua tensa. A respiração continua rasa. A musculatura dos ombros continua rígida. E de tempos em tempos, o que foi suprimido vaza — numa dor de cabeça inexplicável, numa explosão desproporcional, num sonho perturbador.

“O caráter do ego é formado a partir daquilo a que se renuncia, dos instintos abandonados. As resistências do caráter não se manifestam como sintomas; manifestam-se como comportamento típico, como a maneira de ser.” — Wilhelm Reich, Análise do Caráter (1933)

O caráter como resistência total

Eis a implicação clínica mais revolucionária de Reich: se o caráter é a neurose, então o caráter é também a resistência. Em terapia, o paciente não resiste apenas com ideias — resiste com o corpo inteiro, com a forma como fala, como se senta, como olha (ou não olha) para o terapeuta. O homem que chega ao consultório sempre sorrindo, sempre educado, sempre "tranquilo" não está sendo simplesmente gentil. Está resistindo. Seu sorriso perpétuo é uma defesa contra emoções que ele aprendeu, muito cedo, a considerar intoleráveis.

A diferença entre tratar um sintoma e tratar um caráter é como a diferença entre arrancar uma erva daninha e arar a terra inteira. O sintoma é a erva visível. O caráter é o solo. Se você arranca a erva sem mudar o solo, outra crescerá no lugar. Se você muda o solo, as ervas param de crescer — mas o processo é mais lento, mais profundo e muito mais doloroso.

Exemplo clínico

Considere dois pacientes que chegam ao consultório com queixas de ansiedade. O primeiro é agitado, fala rápido, gesticula, busca aprovação constantemente. O segundo é controlado, fala pouco, senta-se rigidamente ereto, mantém uma expressão neutra. Os dois têm "ansiedade" — mas seus caracteres são radicalmente diferentes. O primeiro usa a agitação como defesa; o segundo usa o controle. Uma abordagem que trate apenas o sintoma (a ansiedade) sem abordar a estrutura de caráter subjacente provavelmente fracassará, porque a estrutura recriará o sintoma em outra forma.

A revolução técnica

A consequência prática dessa visão foi uma mudança radical na técnica terapêutica. Se o caráter é a resistência, então o terapeuta deve confrontar o caráter antes de tentar interpretar o conteúdo. Não adianta dizer ao paciente que ele tem raiva reprimida contra a mãe se ele está sorrindo enquanto você diz isso. O sorriso é a primeira coisa a ser trabalhada. A forma vem antes do conteúdo. A como o paciente se apresenta importa mais do que o que ele diz.

Essa inversão de prioridades — da atenção ao conteúdo para a atenção à forma — é a essência da análise do caráter e a contribuição técnica mais duradoura de Reich à psicoterapia. Praticamente todas as abordagens terapêuticas modernas que trabalham com o "aqui e agora" da relação terapêutica, com a transferência e com os padrões relacionais do paciente, estão, conscientemente ou não, na linhagem de Reich.

Para aprofundar

A formulação original está nos três primeiros capítulos de Análise do Caráter (1933), disponível em português pela editora Martins Fontes. Uma apresentação acessível e contemporânea é O Corpo em Psicoterapia, de David Boadella (1987).