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Energia Orgone

Energia biológica universal que Reich afirmou ter descoberto. Presente nos organismos vivos e na atmosfera. Este é o aspecto mais controverso da obra — não validado pela ciência convencional.

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A energia orgone é o conceito mais controverso de toda a obra de Wilhelm Reich. A partir de seus experimentos com bions no final dos anos 1930, Reich afirmou ter descoberto uma energia biológica universal — presente nos organismos vivos, na atmosfera e no cosmos. Ele a chamou de "orgone" (derivado de "organismo" e "orgasmo") e dedicou os últimos vinte anos de sua vida à sua investigação. A energia orgone divide a comunidade reichiana até hoje: há os que a consideram a culminação lógica do pensamento de Reich, e os que a veem como um desvio trágico que obscureceu suas contribuições clínicas genuínas.

Para Reich, a energia orgone era a base material da vida. Era o que pulsava nos organismos, o que brilhava no céu azul, o que se acumulava na atmosfera antes das tempestades. Ele construiu instrumentos para medi-la e concentrá-la — o mais famoso sendo o acumulador de orgone, uma cabine de camadas alternadas de material orgânico e metálico. Reich também desenvolveu instrumentos de observação (o "orgonoscópio") e de medição (termômetros diferenciais, contadores Geiger modificados) para tentar demonstrar objetivamente a existência do orgone.

A trajetória que levou Reich ao orgone é compreensível quando vista em perspectiva histórica. Na fase vienense (1920-1930), Reich trabalhava com a libido freudiana como conceito clínico. Na fase norueguesa (1934-1939), começou a buscar o substrato biológico da libido — o que o levou aos experimentos com bions e à observação de fenômenos bioelétricos na pele. Nos experimentos com os bions SAPA (areia aquecida), observou uma radiação azulada que produzia efeitos biológicos nos pesquisadores. Em 1939, já nos Estados Unidos, Reich identificou essa radiação como uma energia nova — distinta da eletricidade, do magnetismo e da radioatividade — e a batizou de "orgone". A partir desse ponto, sua pesquisa se deslocou da clínica para a biofísica e, eventualmente, para a física atmosférica (cloudbusting) e a cosmologia.

Na teoria reichiana, a energia orgone opera segundo princípios específicos: flui do mais fraco para o mais forte (ao contrário do calor, que flui do mais quente para o mais frio), é atraída por matéria orgânica e refletida por metal, e se manifesta visualmente como um brilho azulado. Reich descreveu detalhadamente seus experimentos no Journal of Orgonomy e em livros como A Biopatia do Câncer (1948), onde formulou a tese de que o câncer é uma "biopatia" — uma doença sistêmica causada pela estase crônica de energia orgone no organismo.

Este é o aspecto da obra de Reich que exige maior cautela. A energia orgone não foi validada pela ciência convencional. Tentativas de replicação dos experimentos produziram resultados inconclusivos ou negativos. A comunidade científica mainstream rejeita o conceito.

No entanto, é importante contextualizar: Reich fez estas investigações num período em que a biofísica e a bioenergética estavam em seus estágios iniciais. Seu interesse pela "energia vital" se inscreve numa tradição que inclui o élan vital de Bergson, a bioeletricidade de Galvani, o od de Reichenbach e as pesquisas contemporâneas sobre biofotônica (a emissão de fótons por organismos vivos). O fato de Reich ter errado em aspectos específicos — ou de sua metodologia experimental não atender aos padrões atuais — não invalida suas contribuições clínicas anteriores. A análise do caráter e a vegetoterapia permanecem válidas independentemente da teoria do orgone, assim como a mecânica clássica de Newton permanece válida independentemente de seus trabalhos sobre alquimia.

Na clínica reichiana contemporânea, a relação com a energia orgone varia enormemente. Terapeutas formados na tradição orgonômica (como os ligados ao American College of Orgonomy, fundado por Elsworth Baker) trabalham com o conceito de orgone como peça central de sua prática. Terapeutas de orientação neo-reichiana — bioenergéticos, biossintéticos, funcionalistas — tendem a utilizar o vocabulário de "energia" de forma mais metafórica, sem aderir à literalidade da teoria do orgone. E há uma terceira posição, cada vez mais comum: a de terapeutas que reconhecem a importância histórica do orgone no desenvolvimento do pensamento de Reich, mas preferem formular a clínica em termos compatíveis com a neurociência e a fisiologia contemporâneas.

Para o estudante da obra de Reich, a energia orgone é incontornável: é impossível entender a fase americana sem ela. Mas é possível — e muitos terapeutas reichianos fazem isso com integridade intelectual — trabalhar clinicamente com os conceitos de couraça, segmentos e vegetoterapia sem aderir à teoria do orgone. O importante é não descartar Reich inteiro por causa do orgone, nem aceitar o orgone acriticamente por admiração a Reich. O pensamento crítico, que o próprio Reich valorizava, exige que cada parte da obra seja avaliada com seus próprios méritos.

Para aprofundar:

REICH, Wilhelm. A Biopatia do Câncer. In: The Discovery of the Orgone, Vol. 2. Nova York: Orgone Institute Press, 1948.
BOADELLA, David. Nos Caminhos de Reich. São Paulo: Summus, 1985.
SHARAF, Myron. Fury on Earth: A Biography of Wilhelm Reich. Nova York: St. Martin's Press, 1983.

Definição-chave

Energia biológica universal que Reich afirmou ter descoberto. Presente nos organismos vivos e na atmosfera. Este é o aspecto mais controverso da obra — não validado pela ciência convencional.

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