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Bions

Vesículas microscópicas que Reich observou ao desintegrar matéria orgânica. Ele interpretou como formas de vida intermediárias. Os experimentos com bions na Noruega geraram grande polêmica.

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Os bions são vesículas microscópicas que Reich afirmou ter observado em seus experimentos de laboratório na Noruega, entre 1936 e 1939. Ao submeter matéria orgânica e inorgânica a processos de desintegração (aquecimento, autoclavagem, fervura), Reich relatou o surgimento de pequenas vesículas pulsantes que ele interpretou como formas de vida intermediárias — uma transição entre matéria inorgânica e vida organizada. Os bions ocupam uma posição singular na obra de Reich: são o ponto de virada que transformou um psicanalista dissidente num pesquisador de laboratório, com todas as consequências — férteis e trágicas — que isso acarretou.

A pesquisa com bions começou em 1936, quando Reich já estava estabelecido em Oslo. Nessa época, ele buscava o substrato biológico da libido — a energia que, na teoria freudiana, era um conceito abstrato, mas que Reich queria encontrar materialmente. Inspirado pelos trabalhos de biogênese do século XIX e pela teoria da tensão-carga que havia formulado, Reich começou a observar ao microscópio o que acontecia quando matéria orgânica (grama, terra, alimentos) era submetida a processos de desintegração. Relatou a formação de vesículas que pulsavam — expandiam e contraíam — e que, em certas condições, se organizavam em estruturas mais complexas.

Reich acreditava que os bions demonstravam a possibilidade de geração espontânea de vida a partir de matéria inerte — uma ideia que a biologia havia descartado desde os experimentos de Pasteur no século XIX. Os bions eram, para ele, a prova material de que a vida não é uma "propriedade" de certos tipos de matéria, mas uma função da energia que permeia toda a natureza. Ele os classificou em diferentes tipos: bions de grama, bions de terra, bions de carvão, e — o mais importante — os bions SAPA (Sand Packet), preparados a partir de areia aquecida até a incandescência.

Os experimentos geraram enorme polêmica. Em 1937-1938, a imprensa norueguesa lançou uma campanha violenta contra Reich, com dezenas de artigos acusando-o de charlatanismo e pseudociência. Cientistas convidados a examinar suas preparações microscópicas chegaram a conclusões divergentes — alguns confirmaram a presença das vesículas, mas as interpretaram como contaminação bacteriana, artefatos de preparação ou simplesmente como fenômenos já conhecidos pela microbiologia. A campanha de imprensa foi tão intensa que o governo norueguês recusou-se a renovar a autorização de residência de Reich, contribuindo para sua decisão de emigrar para os Estados Unidos em 1939.

Reich insistia que os bions não eram bactérias contaminantes, mas formas de vida primordiais. A comunidade científica nunca aceitou essa interpretação. A questão permanece aberta para quem se dispuser a replicar seus experimentos com rigor metodológico contemporâneo.

Um tipo especial de bion — o bion SAPA (Sand Packet) — teve papel crucial na história da energia orgone. Em janeiro de 1939, ao preparar bions a partir de areia do oceano aquecida ao rubro, Reich observou uma radiação azulada intensa que, segundo ele, produziu efeitos biológicos nos pesquisadores: conjuntivite, bronzeamento da pele semelhante ao de exposição solar, e sensações de formigamento. Reich acreditou inicialmente tratar-se de radiação nuclear e fez testes com contadores Geiger, que deram negativos. Concluiu então que se tratava de uma energia nova, desconhecida — que ele batizou de "orgone". Foi essa observação que deslocou definitivamente o eixo de sua pesquisa: da clínica psicoterapêutica para a biofísica.

Para o terapeuta reichiano contemporâneo, os bions são mais uma questão histórica do que clínica. Poucos terapeutas trabalham com bions em laboratório; a maioria se concentra nas contribuições psicoterapêuticas de Reich. Contudo, compreender os bions é essencial para entender a lógica interna do pensamento de Reich: ele não "saltou" da clínica para o orgone por capricho — seguiu um fio condutor que ia da libido (energia psíquica) à bioeletricidade (energia fisiológica mensurável na pele) aos bions (energia biológica no microscópio) e, finalmente, ao orgone (energia cósmica universal). Cada passo era, para Reich, uma consequência lógica do anterior.

Os bions são o elo entre a fase europeia clínica de Reich e sua fase americana de pesquisa em orgonomia. Sem os bions, não haveria a "descoberta" do orgone, não haveria o acumulador, não haveria o cloudbusting, e a história de Reich teria sido muito diferente. Para o estudante da obra, os bions representam o momento em que Reich cruzou a fronteira entre a psicoterapia e a pesquisa biofísica — uma fronteira que, uma vez cruzada, não permitiu retorno.

Para aprofundar:

REICH, Wilhelm. The Bion Experiments. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 1979.
BOADELLA, David. Nos Caminhos de Reich. São Paulo: Summus, 1985.
SHARAF, Myron. Fury on Earth: A Biography of Wilhelm Reich. Nova York: St. Martin's Press, 1983.

Definição-chave

Vesículas microscópicas que Reich observou ao desintegrar matéria orgânica. Ele interpretou como formas de vida intermediárias. Os experimentos com bions na Noruega geraram grande polêmica.

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