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Contemporâneos

Genovino Ferri

1948– · Itália

Desenvolvedor da psicoterapia corporeo-relacional

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Genovino Ferri representa a evolução contemporânea da vegetoterapia na tradição italiana — a mesma tradição que passa por Reich, Raknes e Navarro. Psiquiatra de formação, psicoterapeuta corporal de vocação, Ferri desenvolveu o que chama de psicoterapia corpo-relacional (psicoterapia corporeo-relazionale), uma abordagem que mantém as raízes reichianas e navarrianas mas as enriquece com contribuições da neurociência, da teoria do apego e da fenomenologia intersubjetiva.

O ponto de partida de Ferri é a vegetoterapia de Navarro — de quem foi aluno e colaborador. Mas Ferri percebeu que a vegetoterapia clássica, com seu foco nos actings e na sequência segmentar, corria o risco de se tornar excessivamente técnica, esquecendo a dimensão relacional do processo terapêutico. Sua contribuição foi reintroduzir — ou explicitar — essa dimensão: o que acontece entre terapeuta e paciente, a qualidade do campo relacional, a sintonia corporal entre dois organismos vivos em contato. Nesse sentido, Ferri faz uma ponte entre a tradição reichiana e as abordagens relacionais contemporâneas da psicanálise.

Uma das contribuições teóricas mais importantes de Ferri é sua análise do caráter como sistema relacional. Para Reich, o caráter era uma formação defensiva individual — a armadura que a criança construía para sobreviver no seu ambiente. Ferri não nega isso, mas acrescenta que o caráter é também um padrão relacional: uma forma de estar com o outro que se repete automaticamente e que molda todas as relações da pessoa, incluindo a relação terapêutica. Assim, o terapeuta não apenas lê o corpo do paciente e aplica actings — ele participa, com seu próprio corpo e sua própria estrutura de caráter, do campo relacional que se cria entre os dois.

O corpo não mente — mas também não fala sozinho. Ele fala na relação, através da relação, e é na relação que pode ser escutado e transformado.

— Genovino Ferri

Ferri integra extensamente a neurociência em seu trabalho teórico. Utiliza conceitos como neuroplasticidade, neurônios-espelho, regulação afetiva e teoria polivagal para oferecer uma base neurocientífica às observações clínicas de Reich e Navarro. Essa integração não é superficial: Ferri conhece a literatura neurocientífica em detalhe e a articula com a experiência clínica, mostrando como os conceitos reichianos — couraça, pulsação, segmentos — encontram correlatos nos mecanismos neurobiológicos conhecidos.

Seus livros — entre os quais Body Sense (2012) e Psicopatologia e Carattere (2017) — são leituras densas que exigem familiaridade tanto com a tradição reichiana quanto com a neurociência contemporânea. São textos para profissionais, não para o público geral, mas oferecem uma das articulações mais rigorosas entre psicoterapia corporal e ciência atualmente disponíveis.

Ferri é uma figura ativa nas organizações europeias de psicoterapia corporal, especialmente na EABP (European Association for Body Psychotherapy) e na Società Italiana di Analisi Reichiana (S.I.A.R.), da qual é um dos principais representantes. Sua atuação institucional contribuiu para o reconhecimento da psicoterapia corporal como abordagem legítima nos contextos acadêmico e regulatório europeus.

No campo reichiano mais amplo, Ferri representa uma terceira via: nem a ortodoxia conservadora de Baker e Konia (que mantém tudo de Reich, incluindo o orgone), nem as rupturas criativas de Lowen e Boadella (que desenvolveram abordagens próprias afastando-se parcialmente de Reich), mas um desenvolvimento orgânico da vegetoterapia que a mantém reconhecível enquanto a enriquece com contribuições contemporâneas. É a vegetoterapia do século XXI — reichiana no fundamento, relacional no método, neurocientífica na linguagem.

Obras Principais

  • 2012 Body Sense
  • 2017 Psicopatologia e Carattere

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